( Sugestão para leitura, deixar esse som rolando: https://youtu.be/4shzdKD3tpk?si=dLeQZbr6ii4MRvV6)
A gente tem essa mania engraçada, e quase fatal, de achar que a cura é um exílio. Que para consertar o que quebrou por dentro, a receita é trancar as portas, correr as cortinas e, no breu da solitude, catar os cacos em silêncio. No momento em que a ferida acontece, a dor é um solavanco, um rasgo que nos faz chorar e nos isola no nosso próprio sofrimento. A gente se protege. Protege o corte do dedo alheio, do olhar que julga, do "eu te avisei" que fere tanto quanto o ferimento original.
Enfiar a ferida no fundo da gaveta emocional parece a solução mais segura. Lá, ela fica guardada, sensível, mas pelo menos ninguém encosta. Mas o que a gente esquece é que ferida abafada não sara; ela apodrece.
Nas horas de dor mais viva, o mundo realmente perde as nuances. Vira preto e branco, um jogo de tudo ou nada. É culpa nossa por termos nos deixado ferir, ou é culpa do outro que, sem piedade, nos rasgou? O mundo se divide em vítimas e agressores, e a dor, soberana, nos impede de ver as dores alheias ou as belezas que ainda resistem nas frestas da vida.
É nesse ponto, quando o peso de carregar uma ferida dolorida e escondida se torna insuportável, que a gente percebe o engano do isolamento. A cura emocional não é um processo solitário, ainda que precise de momentos de introversão. Ela é um mix, uma dança entre cuidar do que doi e viver o que há para ser vivido.
E é aqui que o meu coração se inunda de uma gratidão profunda e silenciosa. Gratidão à cura espiritual que me foi trazida por Nanã. Vovó Buruquê, a senhora das águas paradas e profundas, que conhece todos os pântanos de angústia onde a nossa alma pode se atolar. Nanã não é uma Orixá de alardes ou soluções mágicas que apagam o passado. O remédio dela é lento, como o movimento do barro que se forma no fundo dos rios.
A cura de Nanã é ancestral. Ela nos acolhe com a paciência que só quem já viu milênios de dores pode ter. Ela não nega a ferida, não nos manda "esquecer". Pelo contrário, Vovó nos ensina a olhar para a dor com respeito, a limpar a ferida, mesmo que o remédio faça reviver a dor. Porque para Nanã, reviver a dor não é para castigar, mas para transmutar.
O engano do isolamento mora no medo de ser vulnerável. Mas Vovó Buruquê nos mostra que a verdadeira força está em nos deixar ser acolhidos. A cura acontece quando paramos de lutar sozinhos e nos entregamos ao abraço da coletividade, ao apoio dos que nos amam, e ao colo acolhedor da espiritualidade. Nanã é esse colo. Ela transforma o barro da nossa angústia em sementes de sabedoria.
Conforme a gente vai cuidando e também vivendo, as cores vão, sutilmente, retornando ao nosso mundo. O preto e o branco dão lugar a um cinza suave, e depois a um verde esperança, a um azul paz. E quando menos percebemos, ao tocarmos o lugar que antes doía tanto, descobrimos que ele cicatrizou.
A dor viva, aquela que nos paralisava, não existe mais. Ela se foi, levada pelas águas mansas do tempo de Nanã. O que sobrou é a cicatriz. Uma marca. Mas uma marca que já não dói, um testemunho de que fomos feridos, mas que, sob o manto acolhedor de Vovó e com a ajuda de todos que nos cercam, fomos capazes de nos reconstruir. A cicatriz não é uma vergonha, é um emblema de superação, um lembrete da resiliência e, acima de tudo, do milagre da cura que acontece quando paramos de nos isolar e nos permitimos ser parte de algo maior.
Saluba, Nanã! Que a tua cura ancestral sempre nos alcance.









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